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Enquanto vê o rímel preto passar aos poucos do aplicador para as suas longas pestanas que lhe adornam o olho já pintado de verde-petróleo e purpurinas, ela canta baixinho uma das suas músicas preferidas
Não estragues, não estragues
O brinquedo do amor...Lara-la-na-na-na
Na-na-nananana-na...Nisto, é interropida por pancadas demasiado fortes na porta da
roullote, que acabam por fazer abrir a porta e a deixam exposta perante um tipo de rabo de cavalo e blusão de cabedal.
Eh, ó Tony, vai pó caralho, ó filha da puta... Foda-se...
Ó jóia, não te chateies pá, que foi de sem querer. Mas olha que já marchavas.
És um porco nojento. Queres festa, vai ter com a tua mulher, ó javardo.
Vá lá, princesa... Não te chateies, que eu quero é alegria no trabalho.
Queres alegria mas é no caralho, ó paneleiro. Sai daqui, ó filha da puta. E ele lá saiu.
Cristina cresceu assim. A atitude, herdou-a da mãe e do ambiente da aldeia onde cresceu, no distrito de Viana do Castelo. O gosto pela música, esse, herdou-o do pai e das noites que passou a ouvi-lo cantar ao desafio na tasca da família, entre o tinto verde e as pataniscas. Foi com ele que aprendeu a tocar acordeão e foi esse o timbre que se ouviu no funeral do senhor Reboredo, depois de ele ter perecido devido a uma espinha de bacalhau. A dona Lúcia nunca mais foi a mesma desde aquele dia, e Cristina começou a dar-se com gente que não interessava a ninguém, acabando por fugir com Rogério, que trabalhava nos carros de choque e conduzia com uma perna de fora enquanto fumava Marlboro 100. Depressa aprendeu a fazer farturas, com a mãe de Rogério. Apanhou-lhe o jeito quando, já farta de explicar, ela lhe disse "ó melher, fazes como se estivesses a cagar e a dar ao cú, catano..."
Foda-se... Foda-se, caralho, pá. Em vez de comprarem material novo, andam aqui com estas merdas que até metem nojo. Foda-se.... Foda-se, caralho. Foda-se...Qué que foi, Cristina?Qué que foi o qué que foi? Qué que foi, o caralho, ó filha da puta...Rogério, que trazia a filha de ambos ao colo, riu-se da irritação de Cristina, deixando ver a baliza que tinha entre o canino e o incisivo. Acendeu um cigarro.
Toma a menina. Mas estragastes essa merda? Sai já daí, pá...
Estraguei o quê? Isto é que não vale nada, são as merdas que o Tony arranja. Esse porco.
Não falas assim do meu tio, cabra de merda. Queres levar nos cornos, queres?
Fazes isso e eu digo à sigurança social que tu me bates e ficas sem o abono...
Ai o caraaaaaaalho...
Sabes o que é que o Tony fez hoje, sabes? Abriu a porta da roulotte sem licença e viu-me quase nua. E tava para lá com merdas.Rogério parou de tentar arranjar o carrinho das farturas, cuspiu para a mão, apagou o cigarro na poça de saliva e limpou-se às calças enquanto se dirigia a passos largos para a bilheteira do Trem Fantasma. Assim que lá chega, puxa o tio pelos colarinhos e tira-o da bilheteira pela janela fazendo-o cair no chão, e começa a aviar-lhe biqueiradas na boca e nos rins.
Só não o mato, porque o tio sabe que eu gosto de si como a um pai.Previously, in Histórias de Encantar:
Cap. ICap. IICap. III