
Há cerca de 10 anos atrás, tinha eu 17 primaveras e um dente cariado, disse aos meus pais que precisava de ir ao dentista. Nessa altura - como não era eu que pagava - até nem me importava de ir ao dentista, facto que desabou no dia marcado para a consulta.
Para além dos diálogos que todos os dentistas adoram ter quando os pacientes têm aquele mini aspirador de cuspo no canto da boca, que se pega à língua e à bochecha sempre que tentamos articular sons mais complexos do que "ãn-ãn", "hum-hum" e "shim-shim", aquela dentista cinquentona deixou-me particularmente sem palavras.
Assim que começa a meter a broca no meu molar eu me começo a torcer todo na cadeira e a dizer "auuugh", respondendo ela "então, querido, tá a doer?", eu questiono "então e não há anestesia?" e ela "ah... só uso quando os pacientes insistem assim muito" e eu "então se calhar eu insisto..." e ela "então você acha que não se aguenta?" e eu "não, nem quero tentar". E lá foi buscar uma anestesia.
Começa a tratar o dente chegando-se muitíssimo próximo de mim, como nenhum dentista alguma vez havia chegado. Uma espécie de Pedro Álvares Cabral dos dentistas, mas em gaja e na menopausa. Sentada num banco com rodas, falava comigo demasiado perto da minha cara. E digo demasiado perto, mesmo para quem trabalha dentro da boca de alguém. Achei relativamente normal. Devia ser para ver melhor, porque o meu dente estava lá para trás. Comecei depois a pensar que o dente devia estar no esófago ou no estômago ou assim, porque ela chegava-se cada vez mais perto... Até que por fim, entre conversas esquisitas, diz-me "olhe, vou ter que me sentar em cima de si, que este banco está-me sempre fugir" e eu aterrorizado, nem reagi. Simplesmente não acreditei que ela tivesse acabado de dizer aquilo. Mas foi só durante um milissegundo, porque depois eu já não precisava de acreditar: ela estava efectivamente sentada ao meu colo.
Uns 70 quilos de médica dentista cinquentona e tarada ao meu colo. E eu de boca aberta, a grunhir "CÁ-MA-ALEIRRÁR!!!" e ela "diga?" e eu "CÁ-MA-ALEIRRÁR!!!" e ela, espere aí que eu tiro-lhe o aspirador da boca, e eu "Está-me a aleijar!" e ela "ai, querido, vou ser mais meiguinha" e eu "mas não é na boca, você está-me é a esmagar a mim..." e ela levantou-se.
Seguiram-se 20 minutos de estranheza e incredulidade, e de "o meu querido isto, o meu querido aquilo" e "você é tão giro" e "se fosse assim todos os dias" e eu sem conseguir articular palavra. No fim deu-me dois beijinhos e disse-me "olhe, não lhe vou cobrar a anestesia".
E eu: "ah.... err... ena, que que bom..."
E ela: "então, para a semana fica marcado para a mesma hora, não é?"
E eu: "pois... sim, sim... vá... tchau..."
Ainda não recuperei deste episódio. De cada vez que tenho que ir ao dentista, penso sempre que do outro lado da porta do consultório a olhar para o registo de marcações onde está escrito "17:30 - Tiago Grilo", está a tarada menopausada a tocar-se, envergando apenas uma máscara de dentista.
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