
O milagre aconteceu. O meu velho carro, já com 228.000 Km (metade deles percorridos em contra ordenações graves, muito graves, ou em elevado grau de alcoolemia) aguentou uma viagem de ida e volta ao deserto do Sahara. Fez 4.000 Km sem se queixar e ainda deu boleia a um marroquino que trabalhava num hotel e nos tinha servido o jantar na noite anterior. Chegou perto de nós e com a sensibilidade marroquina perguntou "para onde vão hoje?" e eu "para as dunas de Merzouga" e ele "ah, eu também vou" e eu "ah sim, olha que coincidência do catano" e ele "vocês podem dar-me boleia?". Ia comprar ervinhas para a
harira, a sopa do Ramadão, e decidiu ir ver o preço 200 km a Sul. E eu tudo bem.
Conduzir em Marrocos é uma experiência que toda a gente devia ter no
curriculum. Para se deixarem de mariquices como parar em vermelhos, deixar pessoas passar, ou mesmo andar a direito. A simplificação é uma coisa maravilhosa. Se só há 2 faixas para cada lado e precisas de ultrapassar, para quê dizer mal da opção urbanística? Criar uma faixa imaginária e acreditar que ela existe é o segredo. Acelera-se a fundo pelo traço contínuo e imagina-se com muita força que existe ali uma bela macadâmia bem delimitada e seguríssima. E funciona. Eu sei, porque adoptei essa estratégia logo em Tânger e estou aqui para contar.
Qualquer
grand-taxi marroquino que se preze é um Mercedes 190D com 30 anos. E como é um Mercedes, aguenta com muito marroquino, daí que nunca se ocupem apenas os 5 lugares. Eles imaginam com muita força que aquilo é uma carrinha de 7 lugares e já está, não há cá necessidade de comprar carrinhas panisguinhas. E acreditam com tamanha vontade, que cheguei a ver um desses Mercedes com 3 gajos à frente e absolutamente vazio atrás. Mas não se pense que o trânsito marroquino não tem leis. Tem duas muito importantes: a Lei das Probablilidades e a Lei do Acaso. E eles têm uma coisa que nós não temos: Alá. Só por intervenção divina se explica que não haja um acidente a cada cruzamento ou rotunda, sendo que esta última é uma imitação das rotundas ocidentais, padecendo da maleita se dar prioridade a quem está fora da rotunda e não o contrário.
Alá tem muito trabalhinho. Todo o santo dia a desviar marroquinos uns dos outros... Desviou um da minha frente com uma pinta do caneco, quando eu ia a 100 à hora numa espécie de via rápida e se me atravessa um gajo numa mota daquelas com pedais e eu travo a fundo, aos esses, a ver o marroquino cada vez mais perto de ficar montado no meu capot. No último milissegundo, Alá pega nele e desvia-o para a esquerda. O pior é que os gajos fiam-se tanto em Alá, que nem sequer olham para ver se vem alguém. Simplesmente acreditam.
Foi uma viagem cheia de percalços, mas Marrocos acaba por seduzir os visitantes. A minha namorada, por exemplo, ficou muito agarrada a Marraquexe. Mas foi só por 2 ou 3 segundos, porque depois conseguiu soltar-se do candeeiro onde apanhou a descarga e caiu para o chão.
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