2009-12-04

Histórias de Encantar - IV



Enquanto vê o rímel preto passar aos poucos do aplicador para as suas longas pestanas que lhe adornam o olho já pintado de verde-petróleo e purpurinas, ela canta baixinho uma das suas músicas preferidas

Não estragues, não estragues
O brinquedo do amor...


Lara-la-na-na-na
Na-na-nananana-na...


Nisto, é interropida por pancadas demasiado fortes na porta da roullote, que acabam por fazer abrir a porta e a deixam exposta perante um tipo de rabo de cavalo e blusão de cabedal.

Eh, ó Tony, vai pó caralho, ó filha da puta... Foda-se...
Ó jóia, não te chateies pá, que foi de sem querer. Mas olha que já marchavas.
És um porco nojento. Queres festa, vai ter com a tua mulher, ó javardo.
Vá lá, princesa... Não te chateies, que eu quero é alegria no trabalho.
Queres alegria mas é no caralho, ó paneleiro. Sai daqui, ó filha da puta.


E ele lá saiu.

Cristina cresceu assim. A atitude, herdou-a da mãe e do ambiente da aldeia onde cresceu, no distrito de Viana do Castelo. O gosto pela música, esse, herdou-o do pai e das noites que passou a ouvi-lo cantar ao desafio na tasca da família, entre o tinto verde e as pataniscas. Foi com ele que aprendeu a tocar acordeão e foi esse o timbre que se ouviu no funeral do senhor Reboredo, depois de ele ter perecido devido a uma espinha de bacalhau. A dona Lúcia nunca mais foi a mesma desde aquele dia, e Cristina começou a dar-se com gente que não interessava a ninguém, acabando por fugir com Rogério, que trabalhava nos carros de choque e conduzia com uma perna de fora enquanto fumava Marlboro 100. Depressa aprendeu a fazer farturas, com a mãe de Rogério. Apanhou-lhe o jeito quando, já farta de explicar, ela lhe disse "ó melher, fazes como se estivesses a cagar e a dar ao cú, catano..."

Foda-se... Foda-se, caralho, pá. Em vez de comprarem material novo, andam aqui com estas merdas que até metem nojo. Foda-se.... Foda-se, caralho. Foda-se...

Qué que foi, Cristina?

Qué que foi o qué que foi? Qué que foi, o caralho, ó filha da puta...

Rogério, que trazia a filha de ambos ao colo, riu-se da irritação de Cristina, deixando ver a baliza que tinha entre o canino e o incisivo. Acendeu um cigarro.

Toma a menina. Mas estragastes essa merda? Sai já daí, pá...
Estraguei o quê? Isto é que não vale nada, são as merdas que o Tony arranja. Esse porco.
Não falas assim do meu tio, cabra de merda. Queres levar nos cornos, queres?
Fazes isso e eu digo à sigurança social que tu me bates e ficas sem o abono...
Ai o caraaaaaaalho...
Sabes o que é que o Tony fez hoje, sabes? Abriu a porta da roulotte sem licença e viu-me quase nua. E tava para lá com merdas.


Rogério parou de tentar arranjar o carrinho das farturas, cuspiu para a mão, apagou o cigarro na poça de saliva e limpou-se às calças enquanto se dirigia a passos largos para a bilheteira do Trem Fantasma. Assim que lá chega, puxa o tio pelos colarinhos e tira-o da bilheteira pela janela fazendo-o cair no chão, e começa a aviar-lhe biqueiradas na boca e nos rins.

Só não o mato, porque o tio sabe que eu gosto de si como a um pai.




Previously, in Histórias de Encantar:

Cap. I
Cap. II
Cap. III

15 comentários:

  1. fabuloso! parecem as histórias que o meu pai contava para me adormecer. ai... as memórias.

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  2. Fantástico! Estou encantada. Vou ler de novo e descobrir os episódios anteriores!

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  3. Sim, esta história prova que o amor pode ser lindo, mesmo sem dentes posteriores.

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  4. Bock15:09

    Ah, ah, ah!!!!!!


    G'anda malha, pá.

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  5. Pá, vou imprimir isto para ler em casa.

    No WC.

    Enquanto estiver a tomar banho.

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  6. tive a ler as histórias e meu deus! fabuloso.

    gosto particularmente da sensação de expectativa, com que ficamos no final de cada história.

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  7. Ya, e depois não acontece nada, né?

    LOL

    - Mas isso é porque não me apetece continuar a escrever!

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  8. Eh eh!! Fantástica! Espero as cenas do proximo capitulo!.
    Sentido de humor excelente! :D

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  9. Sílvia,

    Já só falta um ano ou dois para sair o próximo capítulo!

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  10. Espectáculo! Tem tudo o que eu mais gosto: farturas, amor e carrinhos de choque.

    Vou ler o resto mas não por ordem, para dar um ar de Pulp Fiction.

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  11. AD,

    Pois, não precisas mesmo de ler por ordem. Podes até ler bocados de um e de outro, que não faz sentido na mesma.

    Sílvia,

    Pois demora.

    Pois demora.

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